20 de julho de 2018

O RIO DE JANEIRO GRITA...

... SOCORRO!

Cinco dias foram tempo mais que suficiente para constatar, pessoalmente, a situação de calamidade e abandono vivida por meus conterrâneos cariocas: a Cidade Maravilhosa grita socorro, mas ninguém ouve. Sua voz é sufocada pelo torpor em que vive sua população, ademais de sua acefalia administrativa nos âmbitos estadual e municipal. Qualquer turista desavisado pode juntar-se em coro à canção "Aquele Abraço", de Gilberto Gil, e afirmar em alto e bom tom que "o Rio de Janeiro continua lindo; o Rio de Janeiro continua sendo [...]"

Sim, é verdade. O Rio continua lindo e continua sendo, em certa medida, a cidade que outrora mereceu o título de "maravilhosa". Que o digam os investimentos aplicados em infraestrutura por conta das Olimpíadas de 2016, como a implantação da linha 4 do metrô, ligando a estação General Osório, na zona sul, à estação Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca, zona oeste. Corredores de ônibus, como o BRT, além do charmoso e moderno VLT - Veículo Leve sobre Trilhos, inspirado nos antigos bondes, que saíram de circulação nos anos 60. A revitalização das zonas Central e Portuária também desenhou uma nova estampa nestas áreas de grande circulação da cidade, antes tão depreciadas. 


VLT Carioca - Parada dos Navios / VLT Carioca / Alex Ferro

Praça Mauá/Museu do Amanhã/foto: Rosane Vidinhas


Museu de Arte do Rio/Porto Maravilha/Foto:Sandra Caldas


Parada dos Navios - Painel Kobra/Foto:Rosane Vidinhas

 Apesar dos benefícios gerados pelos Jogos de 2016, um olhar mais acurado verá que a cidade ainda carece de uma profunda remodelagem, principalmente no que concerne à educação, saúde, assistência social e preservação de seus patrimônios históricos e culturais. Os problemas são incontáveis. Ainda há muita sujeira e miséria pelas ruas do Centro; pedintes suplicam ajuda a todo momento aos transeuntes; o odor de urina e fezes, espalhados pelo centro antigo, nos remetem à lembrança de um Rio de Janeiro de séculos passados. A insegurança insiste em acompanhar o cotidiano do carioca e dos turistas que se atrevem a desbravar a cidade. Tudo isso merece ser visto mais detalhadamente em outras oportunidades. Foquemos, por ora, na preservação da memória e dos patrimônios cariocas. 

Para início de conversa, dentre tantos importantes restaurantes no bairro da Lapa, famoso por sua boemia e personagens ímpares da história da capital fluminense, vale resgatar a memória do Cosmopolita, situado na Travessa Mosqueira, 4, bem próximo à sala Cecília Meireles e à Escola de Música da UFRJ






A história desse ícone da gastronomia carioca remonta aos primeiros anos da segunda década do século XX. O restaurante frequentado por políticos, artistas, músicos, jornalistas, intelectuais e a nata da sociedade carioca, quando o Rio ainda sediava a capital da República, encontra-se atualmente em situação de declínio, prestes a fechar suas portas.





 


Diz-se ter sido no Cosmopolita, na década de 30, que surgiu o delicioso prato Filé a Oswaldo Aranha, em homenagem ao então diplomata, político e ministro da Fazenda, o gaúcho Oswaldo Aranha, frequentador assíduo do local. Em matéria publicada na Veja São Paulo, em junho de 2017, de acordo com as primas Zazi Aranha Corrêa da Costa e Isabel Aranha Coelho, respectivamente neta e bisneta do diplomata, o prato que acabou se tornando um dos mais típicos e tradicionais nos restaurantes cariocas surgira entre 1931 e 1934, no extinto Minhota, também localizado no centro da capital fluminense.


Polêmicas à parte, o fato é que críticos gastronômicos respeitados, a exemplo de Danúsia Bárbara, colocaram no topo da lista da boa comida típica carioca esta iguaria feita com filé, arroz branco, batata portuguesa, farofa e alho fatiado dourado.  Uma porção é o suficiente para duas pessoas e, cá entre nós, o sabor é inigualável. 


Quer tenha sido ou não o Cosmopolita o precursor do prato, carro-chefe da casa, a questão é que este tradicional restaurante, comandado pelo galego Juan Tuña, integra o rol de patrimônios culturais cariocas em perigo de extinção. Alguns, inclusive, já fecharam suas portas. É o caso da Gafieira Estudantina, que encerrou suas atividades em outubro de 2017, após 89 anos de existência, e do prédio da sede do Automóvel Club do Brasil, inaugurado em 1860, cujo destino se encontra em processo de discussão. Sob a tutela da prefeitura do Rio, ainda não se sabe o que será abrigado no local: a Casa do Samba, a Casa da Organização das Nações Unidas (ONU) ou um centro cultural da Procuradoria Municipal.





Ao lado: detalhe da matéria de 2009, Caderno Rio Show, Jornal O Globo, sobre o "nascimento" do filé a Oswaldo Aranha.

Abaixo: foto do diplomata Oswaldo Aranha.




Triste rever minha cidade natal e constatar que patrimônios históricos, culturais estão se perdendo pelo descaso e pela falta de políticas públicas que promovam o resgate e a preservação da memória destes locais e, consequentemente, do povo carioca. Vale lembrar que o Rio de Janeiro foi a capital federal do país desde a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, até a mudança definitiva para Brasília, em 21 de abril de 1960.

Muito me alegraria seguir afirmando o que Gil enalteceu em sua canção anos atrás: que o Rio de Janeiro continua lindo; que o Rio de Janeiro continua sendo, e que apesar do Chacrinha não mais continuar balançando a pança e comandando a massa, à moça da favela, aquele abraço! Às comunidades cariocas, que seus dias sejam melhores, mais justos e amenos; às torcidas do Flamengo, do Vasco, do Fluminense e do Botafogo, aquele abraço! Alô, alô Terezinhas, Marias, Joanas, Marieles, que suas histórias e lutas não se percam ou se diluam no tempo, como a memória de nossa cidade (um dia) Maravilhosa.


Texto: Sandra Caldas 
Fotos: Rosane Vidinhas (painel Koba, Parada dos Navios, Museu do Amanhã, restaurante Cosmopolita); Sandra Caldas (Museu de Arte); Alex Ferro (VLT, site oficial).
Fontes de pesquisa: Gafieira Estudantina (https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/10/16/gafieira-estudantina-fecha-as-portas-no-rio-com-quase-r-800-mil-em-alugueis-atrasados.htm> acesso 20 jul 2018);
Automóvel Club do Brasil (https://extra.globo.com/noticias/rio/futuro-do-predio-do-automovel-club-do-brasil-no-centro-esta-em-aberto-2265312.html>acesso 20 jul 2018).

18 de julho de 2018

SER FELIZ DESPENTEIA




De autoria desconhecida, o texto a seguir reflete bem sobre o que é viver um cotidiano feliz, sem exigências consigo mesmo e com o outro. Experimentar a felicidade, realmente, despenteia. Foi preciso revisitar minha terra de origem para descobrir que, para ser feliz, basta se permitir despentear.















Hoje, aprendi que é preciso deixar que a vida lhe despenteie, por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade… O mundo é louco, definitivamente louco… O que é gostoso engorda. O que é lindo custa caro. O sol que ilumina o seu rosto enruga. E o que é realmente bom dessa vida, despenteia…
– Fazer amor, despenteia.
– Rir às gargalhadas, despenteia.
– Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia.
– Tirar a roupa, despenteia.
– Beijar a pessoa amada, despenteia.
– Brincar, despenteia.
– Cantar até ficar sem ar, despenteia.
– Dançar até duvidar se foi boa ideia colocar aqueles saltos gigantes essa noite, deixa seu cabelo irreconhecível…
Então, como sempre, cada vez que nos vejamos eu vou estar com o cabelo bagunçado… mas pode ter certeza que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida.
É a lei da vida: sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, que aquela que decide não subir.
Pode ser que me sinta tentada a ser uma mulher impecável,
toda arrumada por dentro e por fora. O aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença: Arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça, coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique séria…
E talvez deveria seguir as instruções, mas quando vão me dar a ordem de ser feliz?
Por acaso não se dão conta que para ficar bonita eu tenha que me sentir bonita… A pessoa mais bonita que posso ser!
O único, o que realmente importa é que ao me olhar no espelho, veja a mulher que devo ser. Por isso, minha recomendação:
Entregue-se, coma coisas gostosas, beije, abrace, dance, apaixone-se, relaxe, viaje, pule, durma tarde, acorde cedo, corra, voe, cante, arrume-se para ficar linda, arrume-se para ficar confortável!
Admire a paisagem, aproveite… e acima de tudo, deixa a vida lhe despentear!
O pior que pode acontecer é que, rindo frente ao espelho, você precise se pentear de novo…

*Inspiração do mês. Da felicidade de estar onde se ama, em companhia de quem nos é caro, desfrutando do melhor que a vida nos pode oferecer.

20 de dezembro de 2017

UNA SHUBU HIWEA

Livro Escola Viva do povo Huni Kui do rio Jordão



Texto e fotos: Sandra Caldas Lourenço


A sabedoria do povo Huni Kui, habitante da floresta tropical amazônica no rio Jordão, entre o leste do Peru até a fronteira com o Brasil no estado do Acre e sul do Amazonas, está em exposição no espaço Itaú Cultural, desde o dia 6 de dezembro. 
Os Huni Kui, também conhecidos como Kaxinawá, são extremamente ligados à botânica. Sua forma adversa a do homem branco de enxergar a integração do ser humano com a natureza, e o que esta pode proporcionar-lhe principalmente em termos medicinais, acabou por resultar no Livro Escola Viva do povo Huni Kui, em que seus trabalhos de pesquisa com plantas medicinais e processos curativos se colocam à disposição do público.




O trabalho de pesquisa e catalogação das plantas medicinais, registrado em cadernos pelos próprios Huni Kui, está disposto em 21 painéis representativos das 35 aldeias que ocupam o rio Jordão e Tarauacá. O livro nada mais é do que o resultado de um sonho acalentado ao longo de 20 anos pelo pajé Agostinho Manduca Mateus Ika Muru, falecido em 2011.
As aldeias representadas são: Boa Vista, Canafista, Nova Aliança, Belo Monte, Novo Segredo, Mae Bena, Bela Vista, Bari, Nova Cachoeira, Nova Mina, Xico Curumin, Sacado, Altamira, Verde Floresta, Três Fazendas, Coração da Floresta, São Joaquim, Novo Natal, Bom Futuro, Flor da Floresta e Flor da Mata.

Painel a giz, representando a linha do tempo histórico vivido pelos Kaxinawá: tempo da maloca, da correria, do cativeiro, da escola, dos direitos e da história presente.


Cerâmicas, Cestaria e Tecelagem

Exposta nos pisos 1 e 2, a mostra traz ainda os trabalhos de cerâmica, cestaria e tecelagem produzidos pelo povo Huni Kui. 






A pintura que representa a história


Cada painel ao redor do círculo sagrado conta uma história específica do povo Huni Kui


Mural representativo da transformação dos pajés em plantas medicinais



Serviço:

Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva do Povo Huni Kuĩ do Rio Jordão
abertura: quarta 6 de dezembro de 2017, às 20h
visitação: até terça 13 de fevereiro de 2018

terça a sexta 9h às 20h [permanência até as 20h30]

sábado, domingo e feriado 11h às 20h

pisos -1 e -2

Itaú Cultural
Endereço
Avenida Paulista 149 São Paulo SP
CEP: 01311 000 [Estação Brigadeiro do metrô]
Contatos e informações extras

fone 11 2168 1777 fax 11 2168 1775

SOMOS INSTANTES...


Desconheço a autoria do texto a seguir, mas posso afirmar que é profundo e verdadeiro. Reflete instantes que vivemos - ou muitas vezes deixamos de vivê-los -  e por isso mesmo merece ser compartilhado. Reflitamos sobre estas palavras.

foto: Fernando G. Testa

"Somos instantes… e por isso há de se comemorar as datas especiais, soprar as velinhas nos dias festivos, encher de balões a sala de estar, cantar versos de Vinícius, dançar um tango emocionado, reunir a família em torno da mesa de jantar.
Somos instantes… e assim não pode haver economia de roupa de cama nova, taças brilhantes da cristaleira, lingerie especial, sapato lustroso e vestido colorido.
Somos instantes… e por isso não se pode deixar para depois qualquer pendência ligada ao coração. Decepções ocorrem a todo instante, e por mais difícil que pareça, é nos momentos difíceis que a gente aprende a se curar. Então abra a janela e refresque o ar. Borrife perfume nos seus pulsos e solte os cabelos sem medo de embaraçar. Lembre-se de que tudo muda a todo momento, e que as mágoas só permanecem se a gente deixar..."

17 de dezembro de 2017

Até quando?



A violência contra a mulher parece não estancar nunca. Em todos os países e sociedades é crescente o número de mulheres violadas não apenas em seu corpo, mas principalmente em sua moral e pelo fato de ser mulher.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em publicação sobre o feminicídio, lançada em abril de 2016, o Brasil ocupa o quinto lugar no ranking, com uma taxa de 4,8 para 100 mil assassinatos de mulheres. A situação é ainda mais preocupante em se tratando de mulheres negras.
A OMS revelou que, de 2003 a 2013, o assassinato de mulheres negras cresceu 54%, elevando o número de 1.864 para 2.875. Em 33,2% dos casos registrados em 2013, os homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.
Em 2015, o crime de homicídio contra a mulher, praticado por motivações de gênero, passou a ser tipificado com a aprovação da Lei 13.104/2015, que alterou o Código Penal Brasileiro em seu Título I, o qual trata dos crimes contra a pessoa. No entanto, parece que a lei do feminicídio não tem sido suficiente para deter os sucessivos eventos de violência contra a mulher.
No Brasil, a cada hora mais de 500 mulheres são vítimas de agressões físicas. Segundo pesquisa do DataFolha, publicada pelo portal de notícias G1-SP, cerca de 9% das entrevistadas foram submetidas à agressões físicas, 29% sofreram agressões verbais e 52% relatam não ter tomado qualquer atitude contra o agressor, como recorrer às autoridades policiais ou registrar um boletim de ocorrência.
É preciso mudar este quadro. Mas para isso, é necessário que as vítimas não se intimidem, não sintam medo e receio em pedir ajuda.

Para saber mais: ONU Mulheres.

17 de junho de 2015

Sugestão de leitura: conto "Iluminados", de João Carrascoza



Estavam sentados no sofá, marido e mulher, cada um com seu prato na mão, quando ocorreu o blecaute. Um grito ecoou pela vizinhança, sinal de que não fora problema só deles, um fusível queimado. A todos de uma só vez a escuridão engoliu. Em seguida, a quietude dos grandes sobressaltos.
        O susto apagou também a tranquilidade do casal. A surpresa os mastiga, vorazmente, assim como mastigam a última garfada de comida que haviam levado à boca.
         - Carajo! - Ramon grita, e se levanta.
         Corre para desligar a televisão, podem perdê-la se a luz retornar de uma hora para outra. Sorte não existir nada à frente, mesa ou cadeira, que lhe tornasse o caminho perigoso, vantagem de se viver em casa modesta e não ter crianças.
         - Não dá pra comer desse jeito!
         Desde que se casaram, as noites de ambos têm sido tranquilas. Deviam antes agradecer, dádiva magnífica essa escuridão, mas reclamar é do homem, como o corte é da tesoura.
         - Será que vai demorar? - Lúcia pergunta, engolindo a comida.
         - Eu que sei? - ele resmunga, voltando ao sofá. - Não vejo nada.
         Por um momento, imóveis e esperançosos, aguardam o milagre. Como se o blecaute fosse apenas um piscar de olhos da realidade; a luz nem bem sumiu, já reapareceria.
         A escuridão continua, plena, é preciso habituar os olhos. O silêncio se debate, como um coração, ou dois, entre as paredes.
         - Vou buscar uma vela - diz Lúcia, erguendo-se.
         Nascida entre as montanhas de Minas, sobra-lhe serenidade, precisa acalmar o marido, este espanhol explode fácil. Mas, se tem pavio curto, a quantidade de pólvora é mínima. Furioso num instante, resignado no outro. Nesta noite, tem razão em reclamar, difícil encontrar alguém satisfeito com o inesperado. Há quem esteja em apuro maior, sob o chuveiro, ao pé do fogão, dentro de um elevador.
         - Não precisa - ele ruge. - Perdi a fome.
         A luz dos faróis de um carro ricocheteia na vidraça da sala. O súbito clarão revela um vulto inerte, outro a oscilar, duas faces pálidas, já de volta ao escuro.
         Lúcia se esgueira pelo corredor, medindo os passos, como uma equilibrista, os olhos abertos mas vendados, o prato flutua em sua mão vacilante. Ela, sim, deveria se impacientar. Com a falta de luz, não poderá arrematar as costuras do Carnaval para o dia seguinte.
         Na cozinha, ela coloca o prato sobre o mármore da pia e, às apalpadelas, procura pela caixa de fósforos. Não a encontra, e quem a toma pela mão é o medo, estranha lembrança de lápides, densa presença da morte. A mulher procura entre as panelas no fogão, os olhos distinguem alguns contornos, atenuaram-se as sombras, a sólida obscuridade se ameniza, o marido, quando irritado, se expressa em língua materna:
         - Me cago en Dios!
         Lúcia achou a caixa de fósforos, riscou um palito, a chama titubeia e já se apruma. Rápida, ela abre uma gaveta do armário, sabe o que falta e o que sobra em casa, ali há um maço de velas, não para urgências como a de hoje, mas para louvar São Paulo, santo de quem é devota, desde menina, em Ouro Preto. Antes que o palito se queime inteiramente, ela já passou o fogo para um toco de vela. O pequeno facho de luz surpreende a escuridão, detém-na, mas não a domina, o exército das sombras é incontável.
         Estão os dois, marido e mulher, novamente sentados no sofá, o prato nas mãos, a comida ainda não esfriou, embora seu sabor tenha se alterado, para melhor, jantam agora à luz de vela. Ramon serenou, Lúcia leva o garfo à boca e o observa furtivamente. Há pouco assistiam TV, distantes um do outro e, de súbito, ele pode sentir a respiração de Lúcia, ela pode escutá-lo mastigando ruidosamente a comida, os dentes sadios e afiados.
         Não há nenhum castiçal dourado, mesa com requintes, nem dois cálices de xerez. Tampouco alguém para lhes servir à mesa. A vela, grudada a um pires, humilde feito uma coluna em ruínas, derrete silenciosamente. A chama projeta na parede duas sombras, estremecidas, que a um gesto de Lúcia parecem se fundir numa única.
         Apesar do mal-humor, Ramon come com prazer. À beira da chama miúda, a agulha do acaso ou de Deus costura uma atmosfera acolhedora. Se a sombra se projeta em parede de tijolo ou rocha, tanto faz, a quietude da sala recorda o eco em uma gruta.
         - A gente comendo à luz de vela - ela comenta, limpando os lábios gordurosos. - É até engraçado!
         - Não vejo graça nenhuma - ele resmunga. - Se a luz não voltar, vamos ter de tomar banho frio.
         - Vai voltar - ela diz. - Tenho encomenda pra amanhã.
         - Pro Carnaval?
         - É!
         - Pode esquecer.
         - Às vezes vem rápido - ela diz. - Quem sabe dá até pra pegar o finzinho do jornal.
         Se ainda não estão próximos, pelo menos o blecaute reduziu a distância entre eles. Há muito não permaneciam assim, juntos e quietos, um a medir o silêncio do outro, jantando sem a interferência das notícias, voltados para suas vidas, não para o vídeo.
         Outro carro irrompe lá fora, cortando a paz da noite. O bairro permanece às escuras. Em todas as casas, a refletir nos vidros, a chama das velas tremula, confundindo sombras, vultos que bailam como fantasmas.
         Lúcia recolhe os pratos, curta foi a refeição, apesar de interrompida, longa será a próxima hora, sem a TV para hipnotizar Ramon no sofá, a costura para manter a mulher ocupada.
         Ela deixa a vela para o marido, acende outra na cozinha, é preciso lavar toda a louça, tarefa difícil à meia-luz, mas poderia realizá-la de olhos fechados, se é que já não o faz hoje.
         A vela da sala logo se junta à da cozinha. Sem o que fazer, o marido vem ajudá-la. Para surpresa de Lúcia, Ramon pega do pano, gesto proibido aos homens, mesmo meninos, na sua Espanha, e vai enxugando silenciosamente os talheres.
         - Onde ponho isso? - ele pergunta, a escumadeira nas mãos, sem saber qual a sua utilidade.
         - Ali, naquela gaveta - ela responde, apontando com as mãos ensaboadas, ele a guarda na gaveta errada, mais abaixo.
         Não há crianças na casa, bem que gostariam, mas Lúcia não conseguiu ainda, triste anomalia, quem sabe um novo tratamento resolva o seu caso.
         - Acho que desta vez vai demorar - ela diz.
         - Já me conformei - ele comenta, depois de enxugar os dois copos. - Vou perder o jogo do Corinthians.
         - O escuro me lembra a infância - ela diz. - Faltava luz quando chovia. Minha mãe queimava ervas pra Santa Rita.
         - A minha rezava pra Virgem de Macarena. - ele diz. - E contava histórias. Juntava as mãos e das sombras na parede saía tudo quanto é bicho.
         - Eu morria de medo.
         - Eu também.
         - Parecia o fim do mundo.
         - A gente ia pra cama mais cedo.
         - Tomava banho de bacia.
         Ele sorriu, ela também.
         Faltam só duas panelas e a cozinha logo estará em ordem; com um ajudante, mesmo desajeitado, vai-se mais rápido.
         - Se quiser banho quente, posso ferver um caldeirão de água - ela diz, terminando o serviço.
         Ramon permanece calado. Com o pano de prato entre os dedos, abre a porta dos fundos e o pendura no varal. Lá fora, o escuro palpita, a quietude se desdobra pela noite, o ar úmido é como seda no rosto. Uma luminosidade se insinua acima do muro e, só quando ergue os olhos, ele descobre, boquiaberto, as estrelas pulsando no espaço.
         - Coño!
         Lúcia vem em sua direção, nem sonha com mais esta surpresa da noite.
         - Nossa!
         As duas velas ardem na pia, o casal observa os astros. Por alguns minutos, vão permanecer mudos, como crianças, girando a cabeça para ver as estrelas.
         - A última vez que vi um céu assim, a gente tinha começado a namorar - diz Ramon, antes de voltar à cozinha. 
         - Lembro bem - ela emenda. - Foi na varanda de casa. Você declamou um poema de Garcia Lorca.
         Ele fecha a porta, ela vai enchendo o caldeirão de água, conhece bem seu marido, hoje está lhe recordando outro, aquele com forte sotaque, que lhe despertou a atenção no passado.
         Ramon apanha uma das velas e se enfia pelo corredor, sorrateiro e hesitante como um espectro. O breve fulgor da chama desenha estranhas imagens nas paredes, que já retornam à escuridão. No quarto, ele abre o guarda-roupa e algo se desprende lá do fundo, vem sobre ele, vai cair no assoalho, se não o amparar. O susto lhe retarda a ação e, quando se move, não pode mais evitar a queda do objeto. Ao tosco ruído da madeira contra o chão sucede o alegre retinir das cordas. É o seu violão gitano, de muito uso ontem, quase nenhum hoje.
         - Mierda!
         Em boa hora vem este violão, desafinado, uma película de pó o cobre, se o dono não vai até ele, eis que o próprio se move. As velas queimam, uma apoiada no pires sobre o criado-mudo, outra na pia da cozinha, Lúcia à beira do fogão zelando pela água, há quanto tempo ele não lhe canta uma música?
         O marido recolhe o instrumento e se faz a mesma pergunta, nem parece que há uma massa de trevas a separá-los, o essencial é que se tocam, se por pele ou pensamento, não importa. Ramon segura o violão um instante, antes de recostá-lo à cabeceira da cama, a única riqueza que trouxe de sua terra, além da que lhe vai no sangue. Vira-se para o guarda-roupa em busca de short e camiseta, tomar banho é o próximo programa da noite. Se esperasse um pouco, talvez a luz voltasse, mas Lúcia já aqueceu a água, seria triste desapontá-la.
         Ela se esqueceu da costura para o dia seguinte, controla a fervura no caldeirão e em outra panela que levou ao fogo. Dos dois, é quem primeiro sente a dádiva cosida pelo blecaute, já a recebeu outras vezes, chovia forte e costumava faltar luz em Ouro Preto. O terceiro pires, com um toco de vela a arder, repousa na mesa da cozinha, para a borda da banheira Lúcia o conduzirá, vai misturar as duas águas, a fria primeiro, jato de torneira e, em seguida, a fervente, do caldeirão.
         Ramon se despe devagar. Três velas clareiam suas pernas peludas, seu pênis recolhido, suas largas espáduas, e Lúcia, refletida no espelho, tanto quanto as chamas que tremulam, vê o marido deslizar pela banheira, uma contração na face, a água elemental a lhe ungir o corpo.
         - Muito quente? - ela pergunta.
         - Não - ele responde.
         - Vou ferver mais um caldeirão!
         Ramon fecha os olhos, uma delícia o torpor que sente. Desde que haviam alugado a casa, reclamava da banheira. Nunca a haviam usado, queriam substituí-la por um box. Ele agora experimenta uma inesperada sensação de abandono, como se a solidão lhe cutucasse e, então, chamou:
         - Lúcia!
         A costureira, inclinada sobre o fogão, cercada pelas trevas, ouviu o chamado, mas aguardou. Manteve-se imóvel, sabia que Ramon a chamaria de novo, e de fato ele o fez:
         - Por que não vem?
         Ela foi.
         Três chamas tremulam outra vez, juntas, sombras por todos os lados, mais parece um altar esse banheiro silencioso. Lúcia se desnuda, ligeira, os seios cônicos, a cintura delgada, as coxas fartas. Entra na banheira, pela extremidade oposta, para não incomodar o marido, e ficar à frente dele. Apesar da leveza de seu gesto, a água já morna rumoreja à sua entrada. Ramon afasta as pernas para que ela se encaixe.
         - Bueno.
         - Sí, bueno...
         Os dois cerraram os olhos. Ela sente cócegas nos pés e os move com suavidade, roçando sem querer o pênis dele. Ramon abre os olhos, o desejo renasce, sob a água que esfria, em meio às coxas apertadas, eis o púbis de Lúcia onde começa outra noite.
         Não tardará para que o pênis se alongue, os braços se apertem, os corpos se entendam, e o chão se molhe.
         Depois, com as pernas trêmulas, Ramon ajudará Lúcia a arrumar o banheiro, segunda cortesia que lhe faz esta noite. Duas velas já agonizam e, antes que se apaguem, cumpre acender outra e levá-la à sala.
         Envolvida numa camisola, Lúcia se senta no sofá. A casa permanece em ordem, cada coisa em seu lugar, exceto a costura, mas até onde vai sua culpa se faltou luz?
         Segurando um pires, Ramon se enfurnou pelo quarto, voltará metido em seu pijama, na outra mão, o violão gitano.
         A mulher o observa, atônita, a última vez que ele tocou foi há um ano, mais pelo ócio que pela paixão.
         - Vai tocar? - ela pergunta.
         Nem no claro se descobriria que seus olhos sorriem. Vacila sua silhueta com a luz das velas, assim como as mãos de Ramon, apoiando o violão no ventre. Por alguns minutos, ele se ocupa em afinar o instrumento. Gira as tarraxas, estica uma corda, afrouxa outra, inclina-o, recoloca-o na posição inicial, braço contra braço. O toque de seus dedos agora é outro, não como da última vez. Depois de percorrerem o corpo amado, mais habilidosos se tornaram.
         Ao longe, a sirena de uma viatura. Outro automóvel rasga a rua ao lado. A sombra na parede é enganadora, revela apenas um homem e seu violão. E ele o dedilha, compenetrado; Lúcia observa, condescendente, é o intróito de uma clássica canção sevilhana. Sofrível, diriam os entendidos, a performance de Ramon, mas não teria graça nenhuma se em seu lugar estivesse Andrés Segóvia.
         Uma linha puxa outra e outra e outra, até que se constitua um tecido. Assim também se dá com a música. De uma, o homem vai a outra. A primeira, só melodia. A segunda, acrescida de canto, mas voz única. A terceira, e as outras, duas vozes desafiando a escuridão.
         Os dois cantam, como há muito não faziam, esquecidos do futebol, das agulhas, do blecaute. Percebem, mas não se importam, que uma das velas se apaga, as sombras crescem ao redor, ameaçando engolir tudo.
         A segunda vela derrete, está quase no fim. Lúcia poderia ir à cozinha apanhar outra. Ramon ao banheiro, aliviar-se. Mas não, outra sevilhana já foi iniciada. As posições no instrumento ele conhece de olhos fechados. Ela sabe a letra, o marido as ensinou, tantas. E, então, na calmaria da noite, submersos no escuro, continuaram a cantar.

9 de abril de 2015

Um abril carregado de eventos culturais

Para quem vive ou está a passeio na capital carioca, vale a pena conhecer a Fundação Casa de Rui Barbosa, na zona sul do Rio. Este mês, a FCRB está repleta de eventos bacanas, e vale a pena conferir, entre eles, este aqui:

Conferência A dialética de Yang-Mills-Shaw e os neutrinos sociais
Clique na foto para ampliarA Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) recebe a conferência A dialética de Yang-Mills-Shaw e os neutrinos sociais, ministrada pelo prof. dr. José Abdalla Helayël-Neto. O evento acontece no dia 15 de abril, às 15 horas, na sala de cursos da FCRB.

O professor falará sobre seu trabalho à frente do PVNC-Petrópolis, movimento social na área de educação comunitária ligado ao grupo de pesquisa de “Física e Humanidades”, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCTI).

A proposta do curso PVNC-Petrópolis é incentivar o desenvolvimento do pensamento científico em jovens e adultos das classes populares na cidade serrana. O Pré-Vestibular Comunitário vai além do preparo para ingresso nas universidades públicas e se dedica a incluir seus alunos no universo do conhecimento e das ideias.

A palestra, mediada pela pesquisadora Isabel Lustosa, abordará os resultados positivos desse trabalho educacional que teve início em 1994. A apresentação do professor Abdalla será uma oportunidade para saber mais sobre história do projeto que, além de colaborar para a formação de muitos Mestres e Doutores, torna mais clara e perceptível relação da Ciência com a Sociedade.

:: Sobre o palestrante:
José Abdalla Helayël-Neto, natural de Rio Bonito - RJ, é Bacharel e Mestre em Física pela PUC - RJ e MPh e PhD em Física pela International School for Advanced Studies in Trieste, onde realizou a sua formação no Grupo de Pesquisa do Prof. Abdus Salam, Nobel de Física de 1979. No CBPF-MCTI, desenvolve pesquisa na área das Teorias para as Interações Fundamentais. Dedica-se também à Educação para as Ciências e é fundador e professor do PVNC-Petrópolis, núcleo de extensão cuja missão é motivar e formar novas gerações de cientistas oriundos das camadas mais pobres da população.

Fonte: Divulgação - FCRB


E para quem se interessar, estão abertas as inscrições para o II Colóquio Internacional A Casa Senhorial: Anatomia de Interiores. Veja informações no texto abaixo.
II Colóquio Internacional A Casa Senhorial: Anatomia de Interiores
Clique na foto para ampliarEstão abertas as inscrições de proposta de comunicação para o II Colóquio Internacional A Casa Senhorial: Anatomia de interiores. O prazo para envio termina no dia 17 de abril. O evento será realizado de 11 a 13 de agosto de 2015, na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB).
Na ocasião, serão comemorados os 85 anos do Museu Casa de Rui Barbosa, o primeiro museu-casa do pais. O colóquio é promovido pela FCRB e conta com o apoio da EBA/UFRJ, da EAU/UFF e do Museu da República/Ibram, Universidade Nova de Lisboa (Portugal) e Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva (Portugal).

Trata-se de um dos desdobramentos do projeto “A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro. Anatomia dos interiores”, voltado para o estudo da casa de morada da nobreza e da alta burguesia, entre os séculos XVII e XIX, focando os múltiplos aspectos dos seus interiores, que teve como eixo de sua primeira etapa de pesquisa duas regiões do mundo cultural e artístico luso-brasileiro: Lisboa e Rio de Janeiro. Através de colóquios bilaterais e internacionais, da publicação dos resultados das pesquisas e de site especializado, o projeto debateu os fundamentos para um estudo integrado e comparado da Casa Senhorial e dos seus interiores nos dois lados do Atlântico.

O interesse suscitado pelo I Colóquio, realizado em Lisboa (2014), que contou com uma significativa participação de investigadores brasileiros, levou a FCRB promover a realização dessa nova edição do evento em seu auditório.
 :: Eixos temáticos (período compreendido do século  XVII  à década de 1930 do século  XX)
1. Espaço interior, estrutura e programa distributivo. O espaço interior e a função das várias divisões; a circulação, as escadarias e a sua articulação com a entrada, as salas de aparato, as zonas privadas e as zonas de serviço; nomenclaturas funcionais e simbólicas de cada espaço.
2. A ornamentação fixa. A decoração aplicada: do azulejo à pintura mural, passando pelos estuques decorativos, pela madeira e pedraria, pelos tecidos e papel de parede, os programas decorativos e iconográficos.
3. O equipamento móvel. Os objetos que contribuíram para o aparato e conforto das casas ao longo de gerações: pratarias, vidros, louças, candelabros, tapeçarias, tapetes, móveis, bibelôs e equipamento utilitário.

:: Etapas
Até 17 de abril – Envio dos resumos das propostas de comunicação (entre 300 e 500 palavras) e notas biográficas (com o máximo de 400 palavras) para o e-mail  memoria@rb.gov.br, assunto II colóquio A Casa Senhorial;
Até 13 de maio – Divulgação dos resultados da avaliação, da responsabilidade da Comissão Científica do colóquio;
Até 13 de julho – Envio dos textos para o e-mail memoria@rb.gov.br, assunto II colóquio A Casa Senhorial.

:: Inscrições
Isentos = palestrantes, comunicadores, membros da comissão científica, servidores e bolsistas da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Taxa de inscrição: R$ 100,00 (profissionais), R$ 50,00 (estudantes, professores e servidores do MinC).

:: Dados para pagamento
Depósito identificado Associação Amigos da Casa de Rui Barbosa
Banco do Brasil (001) | Agência: 0287 – 9 Conta Corrente: 14983-7
O comprovante de pagamento deve ser enviado para memoria@rb.gov.br com a identificação do depositante.

Informações e inscrições: memoria@rb.gov.br 21 3289.8661 / 8662.


:: Envio de proposta
Fazer download e enviar a ficha de submissão de proposta (disponível no link abaixo) para o e-mail memoria@rb.gov.br, assunto: II colóquio A Casa Senhorial

 

:: Texto para publicação
Os textos para fins de publicação deverão ser remetidos para o endereço eletrônico memoria@rb.gov.br até o dia 13 de julho de 2015 com a seguinte configuração: até 15 laudas com tudo incluído; margens em 2,5cm; fonte arial 11; espaço 1,5; alinhamento à esquerda, parágrafo sem recuo, justificado; separação entre parágrafos com espaço duplo. Notas explicativas e de referências ao fim, fonte arial 9, espaço simples. Não numerar as páginas. Não incluir referências bibliográficas.
Até 6 imagens (300dpi ou 1024 pixels na menor dimensão), com legenda e créditos abaixo da imagem, centralizada, com fonte arial tamanho 9, espaço simples. A localização das imagens deve ser indicada no texto e os arquivos de imagem devem ser enviados em separado em JPEG, identificadas com o número correspondente à figura do texto.
Lembramos que os textos devem seguir as novas normas ortográficas e serem submetidos à revisão, visto que os autores se responsabilizarão integralmente sobre o teor de seus escritos. As autorizações para uso de imagens também ficam a cargo do(s) autor(es).
Ao fim do texto, incluir breve currículo do(s) autor(es) com, no máximo, 8 linhas, fonte arial 11, espaço simples.

Fonte: Divulgação - FCRB



MAIS EVENTOS


Acadêmico e poeta Antonio Carlos Secchin lança o livro “João Cabral de Melo Neto: uma fala só lâmina”

O Acadêmico, ensaísta e poeta Antonio Carlos Secchin, sétimo ocupante da Cadeira 19 e Primeiro-Secretário da Academia Brasileira de Letras, lança, no dia 16 de abril, quinta-feira, a partir das 19 horas, na Livraria Travessa do Leblon, o livro João Cabral de Melo Neto: Uma fala só lâmina. A obra, editada pela Cosac Naify, é a reunião de seus ensaios escolhidos sobre o poeta pernambucano e foi organizado em duas seções, segundo os editores.
Na primeira, Secchin analisa todos os livros de João Cabral, cronologicamente sequenciados. Essa parte reedita a obra João Cabral: a poesia do menos, publicada em 1985, inteiramente revista e ampliada em cinco capítulos: “O poeta aponta” (sobre Primeiros poemas), “Frei Caneca: a voz silenciada” (sobre Auto do frade), “Outras paisagens” (sobre Agrestes), “Ouvindo dizer” (sobre Crime na calle Relator) e “Ponta final” (sobre Sevilha andando).
Na segunda, intitulada “Outros ensaios”, estão reunidos estudos de Secchin, antes dispersos, também fundamentais para uma compreensão aprofundada da obra de João Cabral. De acordo com os editores, o livro conta ainda com uma seção iconográfica que reproduz as capas das primeiras edições dos livros de poesia do escritor pernambucano, que também foi Acadêmico – ocupou a Cadeira 37, para a qual fora eleito em 15 de agosto de 1968 (faleceu no dia 9 de outubro de 1999).
Os editores selecionaram, também, uma frase de João Cabral de Melo Neto numa entrevista de 1991: "Entre todos os professores, pesquisadores e críticos que já se debruçaram sobre minha obra, destaco Antonio Carlos Secchin. Foi quem melhor analisou os desdobramentos daquilo que pude realizar como poeta".
Saiba mais
Antonio Carlos Secchin
Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. Doutor em letras e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2004 ocupa a cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras, onde exerce, atualmente, o cargo de Primeiro-Secretário.
Poeta e ensaísta, Secchin publicou, entre outras obras, João Cabral: a poesia do menos (1985),Poesia e desordem (1996), Todos os ventos (poemas reunidos, 2002, ganhador dos Prêmios da ABL, da Biblioteca Nacional e do Pen Clube), Escritos sobre poesia & alguma ficção (2003), 50 poemas escolhidos pelo autor (2006), Memórias de um leitor de poesia (2010), Eus & outras (antologia poética, 2013).
Ainda em 2013, a Editora da UFRJ publicou Secchin: uma vida em letras, com dezenas de artigos, ensaios e depoimentos sobre a produção do Acadêmico como escritor, editor, docente e bibliófilo. É Oficial da Ordem de Rio Branco.
7/4/2015

Fonte: Divulgação Academia Brasileira de Letras




O RIO DE JANEIRO GRITA...

... SOCORRO! Cinco dias foram tempo mais que suficiente para constatar, pessoalmente, a situação de calamidade e abandono vivida por meu...